
5 da matina.
Os galos começam a esfregar os olhos, preparando-se para anunciarem um novo dia.
Depois de um fim de semana, intenso de actividades, o Luso dorme profundamente... bem, nem todo. Nalguns tascos, um pequeno grupo de gaulusenses, teima em manter-se de pé, ao som de gargalhadas afogadas em cerveja, desafiando as hostes romanas, que assiduamente vêm tentar calá-los.
Nisto, a escuridão da noite é estilhaçada pelo rugido de uma casaleira ofegante, que só pára junto ao quartel dos bombeiros. -“HÁ FOOOOGO!!!”
Este quartel, recém-inaugurado, era um dos equipamentos porque lutavam aqueles que aspiram elevar esta vila a cidade. Não é novidade, dado que já houveram bombeiros nesta terra. Mas, tal como o Buçaco, que teve carros de combate, onde a famosa Magyrus, fazia inveja às corporações da região, tudo ardeu.
Devido aos parcos recursos, teve de se recomeçar tudo do início. Para isso, fomos ao museu adquirir uma carroça de bombeiros, de tracção animal (ver foto), mais económica e amiga do ambiente, respeitando as directivas comunitárias. Para a puxar, voluntariou-se o Jerico, para o qual não foi fácil encontrar par. É que apesar de existirem muitos burricos, poucos aceitam canga com carácter voluntário. Só se forem bem remunerados. Felizmente, que o Januário, atento a estas causas humanitárias, disponibilizou o seu boi, que para além de puxar carroças, também é exímio em apagar fogos. E assim ficámos com uma corporação bem apetrechada e eclética.
Convencidos os proprietários da Turiluso, a ceder um pequeno cantinho, que não incomodasse ninguém, para instalarmos o quartel, revelou-se mais difícil, retirar o painel publicitário do barricas bar, para colocar a inscrição: “BOMBEIROS BOLUNTÁRIOS DO LUSO”. Só após longas e árduas negociações, foi resolvido o imbróglio ficando acordado em equipar-se a carroça, com uma pipa, com a devida publicidade.
- HÁ FOOOOGO!!!!, gritava o homem, enquanto tentava, em vão, accionar o alarme que não funcionava, por não se ter pago a conta da electricidade.
Irrompe o comandante, tão nervoso, quanto desorientado. O caso não era para menos, visto ser a primeira vez que iam poder mostrar as suas capacidades.
Atrelem os animais à carroça - disse o comandante, e continuou: acordem o Aiquemesaltanlasbolas, que deve estar exausto, mas o dever chama.
Mas ó meu comandante, o tanque está vazio e os extintores estão descarregados - disse um voluntário em desespero.
É que esta corporação apesar de recente, já tinha enraizado o manual de procedimentos, elaborado pelos responsáveis do país e que assenta em duas regras simples:
Regra nº1- (Fora das épocas de incêndios) Dormir o mais possível;
Regra nº2 – (Na época de incêndios) Salve-se quem puder.
O comandante, nem pestanejou: Encham garrafões na fonte, mas atenção. Só dois de cada vez, por causa do protocolo. E umas garrafas também, para substituir os extintores.
Em menos de dois minutos, regressam os homens, com os bofes de fora e os vasilhames vazios.
Ó meu comandante. Fecharam a fonte!!!!.
Mas o comandante, homem de fibra, não se deu por vencido: Corram as tascas todas e escorropichem a cerveja que ainda restar nos barris. Tragam minis para servir de extintores, - mas emendou logo de seguida: Não, não, tragam antes umas greens, que são menos inflamáveis.
E foi assim, que após os necessários trâmites, normais numa situação destas, arrancaram a todo o gás, mas pouco, que a palha tem poucas octanas.
Chegados ao local, o cenário com que se depararam não podia ser mais dantesco.
Não por causa do incêndio, que já estava extinto à muito, mas porque há coisas que queimam mais por dentro, que labaredas a lamber as nádegas.
No local, já se encontravam, em operações de rescaldo, as corporações da Mealhada e da Pampilhosa.
Pôrra, que estes gajos andam sempre à nossa frente!!!!. - vociferou o comandante, com os túbaros no chão.
Doridos na alma, regressaram destroçados, para o quartel, onde encontraram afixado um aviso: “Selado por falta das devidas licenças camarárias”. Foi a gota de água, que apagou a chama que ainda restava para continuar com o projecto. Mais um que ardeu.
3 comentários:
É verdade sim senhor, que já existiram os BVL, mas discordo em absoluto com tal ideia! Até à data quer a Mealhada, quer a Pampilhosa têem dado 100% conta do recado.
Poderse-á dizer que os "piquetes" de interveção rápida que existem no bussaco, poderiam ser mais, e melhor apetrechados, mas isso, não implica decerto, a existência de uma nova estrura de custos a cargo dos contribuintes (directa ou indirectamente).
Quanto ao autotanque, que agora estaria mais ou menos com 35 anos, e portanto algo obsoleto, efectivamente, quer quem de direito, quer alguns dos amigos da engenheira que na altura superentendia sobre as matas, a alertaram para a "tolice" que era oferecer tal viatura para Poiares, na vez de a oferecer à Mealhada ou Pampilhosa (Picardias ou interesses políticos).
Quanto à questão da água na fonte: Quem souber que fale... Ou será que o que sabem é assim tão grave que nem no blog podem escrever???
(Eu poderia escrever umas quantas coisas, mas correria grandes possibilidades de incorrer em imprecisões - não precisamos de mais boatos - precisamos de verdades!!!!)
Quanto à Turiluso, que poderia ser utilizada para infinitos eventos, tal como está.... (nem comentários quero fazer, senão ficávamos aqui toda a noite)
... Fosca-se!!! Ó Maria??!!! Tira a chouriça do lume!!!
amigo, el tonel.
Concordo com o que referiu.
Julgo contudo, que os piquetes de intervenção não existem, ao contrário de outrora, onde se patrulhava durante 24 horas.
Relativamente à corporação, trata-se de uma metáfora, que representa um conjunto de equipamentos em falta e que caricaturiza, modos de estar da população e dos nossos governantes, onde as condições dos meios e materiais estão de pantanas.
um abraço
Olhás chouriças...
Parabéns pelo seu post, Jerico & Albardas. Tocou em mais um ponto sensível da nossa vida lusense. Concordo tanto com o El Tonel como com o Jerico & Albardas, mas antes de pensarmos em bombeiros devíamos pensar na prevenção, o que implica a limpeza da mata, da serra e dos pinhais/eucaliptais que nos cercam. Quanto aos bombeiros, mesmo que os da Pampilhosa e da Mealhada sejam suficientes (também porque nunca tivemos nenhum fogo a sério, excepto há uns anos para os lados da creche) não percebo porque têm eles e nós não. Não se trata de competição ou invejas, mas em relação a essas duas vilas (já sei, uma é cidade) temos mais espaços verdes e patrimónios históricos e botânicos (que depois de um incêndio, serão irrecuperáveis).
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