sexta-feira, agosto 05, 2005

O meu quiosque


Eu e a Maria temos um sonho. Dar um pulo na vida e ter finalmente um negócio seguro: um quiosque na avenida. Já conseguimos encontrar alguém que está disposto a vender mas o homem quer um balúrdio por aquilo – ainda estamos a negociar preços. Entretanto vamos já comprando ums coisitas pró ano que vem, não vá o homem ao vender, levar também o recheio com ele. Que mais pode um homem querer: sombrinha, boa clientela, sentinas atrás do establecimento, boa vizinhança, jardim, café e para os mais crentes como eu – o terço todos os dias – é o paraíso na terra.

Sabendo que estavamos a negociar (porque nesta terra tudo se sabe), apareceu lá em casa um Assan, para vender produtos. “Boa tarde! É o senhor o senhor Tonel?”. Olhei para ele de lado. “Querem ver que ontem no baile dei porrada em alguém e não me lembro” pensei eu. “Sou sim! Porquê? Há azar?” respondi. “É que eu sou vendedor... “. “Pfiuu...” pensei eu. “... da Carapuças & Puças Lda e como soubemos que vai comprar um quiosque vimos mostrar a nossa colecção para 2005/2006!” disse ele. “Ó mostra lá.... Ena pá! Que lindas carapuças! Quanto custam?” perguntei eu. “Um Eurito cada. “ respondeu. “Boa... dá pra vender por dez!” pensei. “Diga-me cá uma coisa, e há de todas as cores e feitios?” perguntei. “A nossa casa tem tradição na arte das carapuças à mais de 20 anos! É claro que temos de todas as cores e feitios! Até temos um departamento especial que as faz de encomenda. Nós temos orgulho em enfiar carapuças a toda a gente sem distinção!” Respondeu ele. “Tou a ver que encontrei um bom produto pró quiosque. Atão arranje-me 100 do Benfica, 100 do Sporting, 100 do Porto e 500 da Selecção” disse eu. “Então o senhor não quer nenhuma aqui da região?” perguntou ele. “Não... as carapuças daqui são muito largas e servem em qualquer cabeça. A malta quer ser original e não gosta de andar de igual com o vizinho” respondi. “Por acaso vinha na rua e reparei que aqui há muita gente que tem o hábito de enfiar carapuças. Até me apercebi de uma pessoa a roubar a carapuça a outro ali naquele café!” disse ele. “Ena pá! Você é de Olhão! Olhe que essas coisas não se podem dizer! Já se roubam carapuças à muitos anos, mas a gente tenta fazer vista grossa! Sabe como é, nunca se sabe quando vamos precisar da carapuça alheia!” disse eu. “Vamos ali à adega beber uma pinguita?” . “Assim é que se fala. Vocês aqui sabem mesmo fazer negócio!” respondeu ele satisfeito. “Estou a ver que vou vender aqui mais umas quantas carapuças!”

4 comentários:

Anónimo disse...

Delicioso como sempre...

O Grama-o-Fone disse...

Lindo!

Anónimo disse...

lol

Anónimo disse...

Enfiar a carapuça, é algo a que todos nos sujeitamos, quando decidimos entrar nesta brincadeira!!!
É o jogo da carapuça e ninguém está de fora!!
Assim, quando ela nos calhar em sorte, importa assumí-la com fair-play e classe,... ao estilo:a minha é mais linda que a tua.., ou...tenho uma carapuça maior que a tua...ou encaixo carapuças, melhor que ninguém...

El Tonel.
Guarda uma carapuça bonita para mim, mas com um descontito, que o negócio anda mau...antes que tenha que enfiar alguma que não goste.